Localizada em Paris, na Rue Vivienne, que faz a ligação entre o Palais Royal e o Boulevard Montmartre, então centro comercial mais importante de Paris, e vizinha da Bolsa de Valores, a Galerie Vivienne é uma passagem e uma galeria de lojas e restaurantes.
A Galerie Vivienne ou como os puristas a chamam, a Passage Vivienne, é um espaço charmosíssimo que liga a Rue Vivienne à Rue des Petits Champs e à Rue de la Banque, próxima da badalada Place des Victoires. A artista plástica Ana Kesselring, em sua estréia como curadora do TASTE, em Paris, faz um passeio ao passado e presente dessa galeria très à la mode há quase dois séculos
Flâneur é o termo romântico para quem curte perambular pela cidade. Será que podemos adentrar a Galerie Vivienne com um livro de Baudelaire em baixo do braço, encarnando um verdadeiro flâneur? Como esse personagem, cunhado pelo escritor e emblemático da Paris do século 19, mistura de filósofo e observador apaixonado que se coloca no meio da ação sem no entanto se fazer notar, sentiria revendo o que foi outrora um dos centros do início da modernidade?
Nostalgia e modernidade
Perambulando por esse espaço, hoje oscilando entre a sofistição e uma certa decadência no melhor sentido da boa tradição, sente-se uma pontada de nostalgia. A Galerie Vivienne é um dos endereços reveladores do que o filósofo alemão Walter Benjamin denominou como a «pré-história da modernidade», ou seja, a Paris de cerca 150 anos atrás.
Em 1788, um escritor disse que havia ali mais dinheiro que em toda cidade. Na vizinhança chique e rica, habitavam os membros de um capitalismo triunfante, aconchegados em seus suntuosos hôtels particuliers (antigas casas da nobreza francesa), como o que pertenceu a Colbert, ministro de Estado de Luiz 14. O histórico sobrenome empresta sua importância à vizinha Galerie Colbert, que abriga hoje o INHA, Institut National de l'Histoire de l'Art. No início do século 19, na mesma rua, estava a Biblioteca do Rei, hoje, Biblioteca Nacional. Nao é à toa que ali ao lado também se situa Le Grand Colbert, restaurante onde Diane Keaton e Jack Nicholson se reencontram, no final feliz de «Something's Gotta Give" (2003), em francês, "Tout peut arriver", tudo pode acontecer...
Luxo Belle Époque
Com o intuito de ser a mais luxuosa de Paris, a Galerie Vivienne abre suas portas em 1826. Sucesso imediato. Torna-se um modelo de consumo moderno, uma das passagens mais copiadas não só na França mas na Bélgica e na Rússia. Quando a iluminaçao a gás inaugura em Paris, desvendando uma nova vida dentro da metrópole, as passagens traduzem à perfeição uma nova necessidade, a de dispor de lugares que concentrassem o comércio de luxo ao abrigo das intempéries em uma capital ainda sem esgotos nem calçadas.
Assita ao vídeo "Traditional Paris Shopping Galleries" sobre a Passage des Panorama, Galerie Vivienne, Passage de Choiseul, Passage Jouffroy e Passage Verdeau (endereços, abaixo, no SuperServiço TASTE):
Origem do conceito do shopping center
É na passagem que está a origem dos nossos malls e shopping centers. Com seus tetos envidraçados por onde passa a luz, seus abundantes espelhos para ampliar os espaços, suas frisas neo-clássicas e seu piso de mosaico, a galeria foi inaugurada como um lugar para ver e ser visto. Como dizem os francêses, «pour faire salon». Eram espaços glamourosos que borbulhavam de movimento. É esta nova vida artificial escandalosamente sedutora, com mercadorias expostas em belas vitrines, com belas e coquettes vendedoras, e visitantes charmosos, que Walter Benjamin descreveu em seu livro inacabado, «As Passagens de Paris». O ensaista alemão dizia ser a Paris do século 19, a cidade de espelhos: «As mulheres ali se vêem mais que em outros lugares, daí vem a beleza tão particular das parisienses. Antes que um homem as vejam, elas já enxergam dez reflexos de si mesmas nos espelhos».
Mosaico pós-moderno do século 21
Depois de alguns altos e baixos, a Galerie Vivienne hoje se dirige ao século 21 em busca de uma contemporaneidade que resgata o passado, projetando-o no complexo mosaico da vida pós-moderna. Visito a imensa boutique de Jean-Paul Gaultier, aprecio as criações da japonesa Yuki Torii, e entro na Livraira Josseaume, intacta, uma verdadeira viagem em busca do tempo perdido.
Um lugar contemporâneo curioso fora de qualquer tempo é o espaço do criador super descolado Christian Astuguevieille, que ja colaborou com a Nina Ricci, Molinard, Rochas, e sobretudo com a Comme des Garçons, como criador de perfumes. É ali que ele expõe seus móveis e objetos. Sofás, vasos, pedestais são recobertos por camadas de cordas ou outros materiais e depois pintados, criando um exótico look afro-parisiense très à la mode. Nessa viagem no tempo, a incrível boutique Wolff & Descourtis propõe chales e écharpes com estampas que resgatam o exotismo de lugares longínquos, paraísos perdidos, em tecidos com materiais como seda e veludo.
Uma taça de vinho e uma armação de casco de tartaruga
Mas em uma tarde cinzenta de inverno, em Paris, o melhor é sonhar com as flâneries deste e de outros tempos. O bar à vins Legrand-Filles et Fils é chique, discreto, ideal. Sento-me no belo balcão de madeira, envolvido por centenas de garrafas que forram as paredes e degusto uma taça de vinho. Em geral nas casas deste estilo é possível comprar uma bouteille e saboreá-la ali mesmo, ao preço do «droit de bouchon», uma soma geralmente pequena, que se paga pela garrafa, sem os custos extras praticados nos restaurantes. É o mesmo «droit de bouchon» empregado quando se leva o próprio vinho à alguns restaurantes.
Um toque final na minha visita é dado pela descoberta já fora do espaço da Galeria, bem à sua frente, na saída da Rue des Petits Champs. Trata-se da pequena oficina que trabalha para o fabricante de óculos sob encomenda, Maison Bonnet. As armações são confeccionadas sur mesure (sob medida). Para o meu espanto, a especialidade são armações em casco de tartaruga verdadeiro! Segundo o funcionário, são provenientes de tartarugas que alimentam certas populações de algum lugar distante.
Aqui, nesse autêntico mosaico pós-moderno do tempo perdido, a palavra extinção, pelo jeito, ainda não faz sentido. 
Fotografias de Ana Kesselring
SuperServiço TASTE:
A Galerie Vivienne tem 3 acessos:
6 rue Vivienne
4 rue des Petits-Champs
5 rue de la Banque
75002 Paris
Todos os endereços abaixo estão no 2ème arrondissement (Paris 75002) :
Bar à vins Legrand-Filles et Fils, 2 acessos:
12 Galerie Vivienne
1 rue de la Banque
Tel: 01 42 60 07 12
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Bistrot Vivienne
4 rue des Petits-Champs
Tel: 01 49 27 00 50
Fax: 01 49 27 00 40
(não tem site, nem email)
Christian Astuguevieille
www.couturelab.com/browse/c114.html
Jean-Paul Gaultier
6 rue Vivienne
Tel: 01 42 86 05 05
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Joyce Pons de Vier
64 Galerie Vivienne
Tel : 01 42 96 32 18
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Livraria Jousseaume
45, 46, 47 Galerie Vivienne
Tel : 01 42 96 06 24
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Maison Bonnet
5 rue des Petits-Champs
Tel : 01 42 96 46 35
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www.maisonbonnet.com/lunettes-sur-mesure
Restaurant Le Grand Colbert (vale a pena entrar no site)
2 rue Vivienne
Tel: 01 42 86 87 88
Wolff et Descourtis
18 Galerie Vivienne
Tel : 01 42 61 80 84
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Yuki Torii
38/40 Galerie Vivienne
Tel : 01 42 96 64 65
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Institut National de l´Histoire de l´Art (INHA), 2 acessos:
6, rue des Petits Champs
2, rue Vivienne
75002 Paris
Endereços das outras passagens parisienses no vídeo acima:
Passage des Panoramas (1800)
Paris 75002
Acessos:
10 rue Saint-Marc
11 boulevard Montmartre
38 rue Vivienne
151 rue Montmartre
Passage Choiseul (1829)
Paris 75002
Acessos:
40 rue des Petits-Champs
23 rue Saint-Augustin
40 rue Dalayrac
Passage Sainte-Anne
www.passagechoiseuil.canalblog.com
Passage Jouffroy (1845)
Paris 75009
Acessos:
10-12 boulevard Montmartre
9 rue de la Grange-Batelière
(não tem site)
Passage Verdeau (1847)
Paris 75009
Acessos:
6 rue de la Grange-Batelière
31 bis rue du Faubourg-Montmartre
(não tem site)



