Nós brasileiros, nos gabamos do nosso carnaval. Afinal, o nosso é o melhor do mundo, o mais exuberante, o mais divertido da face da terra, o maior! Não tem para ninguém, fim de papo. Mas mesmo que não se iguale à nossa, essa festança popular também faz parte das tradições de várias cidades, incluindo Veneza, a pérola do Adriático. Diferente do nosso, bem mais romântico, e em pleno inverno, o de Veneza, é mais longo, começa antes. Em 2012, os festejos iniciaram no dia 12 de fevereiro e findam, como o nosso, no dia 21, na terça-feira gorda, il martedí grasso
Carnevale di Veneza
Na belíssima Veneza, estive três vezes, uma delas, por sorte, no carnevale. No traghetto (barco que cruza o Gran Canale), nas três, meus olhos lacrimejaram tamanha a beleza. Eram os anos 70, eu fazia faculdade de História da Arte, em Florença. Veneza não ficava entupida de turista e o carnevale veneziano não tinha tantos adeptos. Guardo a imagem de ter me deparado sozinha em meio à bruma do final do dia com uma figura mascarada, solitária, paramentada à maneira dos doges (os soberanos de Veneza) em um vicolo (ruela) daquela cidade monumento. Uau! Um flash, mas que viagem no tempo!
Assista ao clipe sobre as fantasias e máscaras do carnaval de Veneza ao som das "Quatro Estações" de Antonio Vivaldi (1678-1741), maior compositor barroco veneziano:
Festa da renascença veneziana, séculos 15 e 16
A fantasia oficial do carnaval é da época da Renascença veneziana (séculos 15 e 16). Hoje, gente de vários países, inclusive do Oriente - os japoneses, por exemplo, adoram devido ao teatro kabuki -, vem para Veneza desfilar toda paramentada e, claro, mascarada. As máscaras são lindas, fazem parte da tradição dessa cidade de grandes artesãos, que reproduzem savoir faire seculares. Imagine, para alguém famoso deve ser uma curtição passear por Veneza anonimamente por causa de uma máscara e roupas de época! Imagino que alguns façam isso. Eu faria.
Aterrissou em Veneza em pleno carnevale. Quer se fantasiar?
O nome mais proeminente no design de fantasias de época, em Veneza, é, sem dúvida, o de Stefano Nicolao. Esse veneziano de 57 anos dirige um atelier enorme aonde é possível encomendar ou alugar o traje por um dia, ou comprar via e-commerce. Outro nome é Pietro Longhi, que também confecciona e aluga fantasias ao preço médio de 300 euros a 90 ao dia, dependendo do traje. As máscaras do Atelier Carta Alta, 100% veneziano, também podem ser enviadas para qualquer parte do mundo. Oferece uma belíssima seleção em papier maché a partir de 15 euros (a meia máscara dourada mais simples, muito chic), a modelos com plumas, todos detalhados, e até um modelo futurista, batizado Lady Gaga, todo em mosaico de espelho (43 euros).
Made in China x Made in Venice
Tem até quem use esses trajes antigos como roupa de casamento e em outras grandes ocasiões. Ex ator, Nicolao também é figurinista de teatro, desenha para a La Fenice, o teatro municipal de Veneza. Sua especialização abrange 500 anos da história da indumentária veneziana, ou seja, cria roupas masculinas e femininas dos séculos 19 (1800) ao 14 (1300). "Fico horrorizado com essas fantasias made in China, feitas em Taiwan, que estão sendo vendidas no carnevale!", reclama o mestre. Até lá...
Nicolau e Madonna
O Nicolao Atelier fica no centro de Veneza, na Cannareggio, próximo do Gran Canale. Foi ele quem criou a famosa roupa de corselet e saião brancos, de casamento, que a jovem Madonna vestiu no clipe "Like a Virgin", em 1984, o segundo da futura pop-icon, todo filmado, em...Veneza!
Assista ao clipe "Like a Virgin" (1984) de Madonna, todo filmado em Veneza com figurino de Nicolao Stefano:
A máscara e o mascarado
O carnaval de Veneza, conta-se, surgiu no 11º século. Na época, o estado de Veneza venceu uma importante batalha, o povo festejou a vitória na Piazza San Marco e a data passou a ser celebrada anualmente até ser oficializada na Renascença, século 15. O uso de máscaras em Veneza se popularizou devido à corrupção do estado e à depravação da sociedade local na época dos doges (chefes da oligarquia de Veneza de 700 a 1797). Atolados em orgias, maracutaias, ardis, esquemas, vinganças, os venezianos de rabo preso, mascarados, tinham a identidade protegida. Daí o termo mascarado ter chegado a nós para indicar alguém de personalidade duvidosa.
Os mascarados do Planalto
Fica a pergunta: será que Brasília sanciona esta lei para os nossos políticos? Que nada, lá é tudo tão cara de pau que nem máscaras precisam. Cara de pau? Sim, porque bate e não dói. Sem sensações nem sentimentos humanos, assim como eram os doges de Veneza...
Endereços em Veneza
Nicolao Atelier:
Atelier Pietro Longhi:
Carta Alta:



