"A primeira vez que peguei em um agulha de tricô foi em 2008", confessa a bonita Alice Lemoine, a criadora dos tricôs artesanais mais desejados pela tribo que sabe das coisas em Paris, que curte design, qualidade e autoralidade. Essa francesa nascida em Bordeaux tem visual e mãos de fada. De produção pequena, seus tricôs super exclusivos são feitos à mão com fios artesanais com tingimento natural. Meu olhar feminino diz: as peças são lindas como Alice. Meu faro profissional de crítica de arte e design resume: é pura arte em tricô
A designer Alice Lemoine (pronúncia : lê-muânn) tem 26 anos, é canceriana, vive em Paris desde os 15 anos e estudou no Japão. É uma moça bonita e culta, do tipo discreto, que não gosta de citar os nomes de suas clientes famosas ("não faz meu gênero, todas são importantes") e adora arte. Um de seus designs no editorial onde ela mesma serve de modelo no slideshow do TASTE homenageia as esculturas de ferro oxidado do grande escultor espanhol Chillida (1924-2002). Suas peças são conceituais, cerebrais mas femininas, se transformam em origamis macios quando dobradas. Sua arte é criada ponto a ponto por agulhas grossas de tricô. Seu estilo é ultramoderno mas atemporal, tem aquele je ne sais quoi da autenticidade que brota da criatividade nata.
A designer concedeu à jornalista Cynthia Garcia, editora do TASTE, esta entrevista exclusiva
Quando você começou a tricotar? Era uma coisa que fazia desde criança?
Não. No meu último ano, me especializei em malharia, principalmente em malharia retilínea (tricô feito à máquina). Mas no trabalho de graduação resolvi tricotar uma suéter, un pull. Foi a primeira vez que tricotei. O começo de tudo.
Por que escolheu estudar na Esmod no Japão?
Era a única escola francesa com filial no Japão e eu queria ir para bem longe. Sempre tive uma paixão pelo país, por sua história, sua estética. Eu sonhava aprender tudo aquilo. Acabei ficando mais de um ano.
Você fala japonês?
Antes de ir fiz um curso de japonês mas, como eu trabalhava com o Rick Owens, eu não tinha tempo. Era muito trabalho, então cabulei muita aula. Falei um pouquinho, mas já esqueci tudo.
O que aprendeu vivendo sozinha no Japão?
Eu era a única estrangeira da escola. Fui me afirmando e me tornei muito independente. Mas a grande lição foi aprender a colocar o trabalho na frente de tudo.
Conte um pouco sobre sua família.
Meus pais são franceses. Meu pai era jornalista, faleceu quando eu tinha 15 anos, e minha mãe teve durante muito tempo uma boutique de peças avantgarde em Bordeaux.
Quando criou sua primeira coleção com seu nome?
A primeira que apresentei para os compradores de lojas foi em setembro de 2008, o mesmo ano em que comecei a tricotar com minhas agulhas grossas.
E seu atelier? Quando o inaugurou? Qual o tamanho de sua equipe?
Desde a primeira coleção nunca mais parei mas abri meu atelier em meados de 2010. Meu atelier é pequeno, fica no bairro des Abesses, em Paris. Tenho apenas três pessoas que trabalham comigo e terceirizo a produção. Meu business está crescendo pouco a pouco. Mas para que cresça mesmo terei que ter gente muito profissinal comigo. Não sei até que ponto quero crescer... Não sou do tipo que só pensa em crescer. Vou passo a passo. Quero crescer em contato com minha clientela como se fazia na época áurea dos ateliers de haute couture.
São peças únicas?
Depende o que você quer dizer com isso. Existe uma produção mas é muito exclusiva. E o fato de serem feitas inteiramente a mão torna cada peça única, diferente uma das outras.
Seu tricôs me lembram Rei Kawakubo no começo dos anos 80, mas com uma sutil sensualidade francesa de um capítulo pós-apocalíptico, imaginário, do livro "Os Miseráveis" de Victor Hugo...
Merci beaucoup pela comparação. Quando crio um modelo, curto imaginar uma mulher menos convencional e até uma mulher mais clássica também. Tento contentar as diversas personalidades femininas que tenho dentro de mim.
Com que tipos de fio curte tricotar?
Adoro os fios de produção artesanal de alta qualidade com tingimentos especiais. Gosto de fio felpudo, dos merinos, de fios bem macios um pouco brilhantes. Na realidade, a única coisa que faço questão é que o fio seja artesanal e não seja fino demais porque tricoto com agulhas grossas.
O que mais curte tricotar e criar com suas agulhas?
Adoro tricotar tops e criar motivos interessantes, principalmente, nas costas.
Como é seu processo de criação e, em média, quanto tempo leva para tricotar uma peça?
Sou bem ágil com as mãos, tricoto rápido, tenho que pensar na produção. Um modelo não pode demorar mais de dois dias para ser confeccionado. Para criar, deixo a idéia pegando corpo na minha cabeça alguns dias, enquanto faço outras peças, depois pego a idéia e tricoto a roupa de uma vez só.
Sua coleção, em geral, tem quantos modelos?
Tenho feito em torno de 15 modelos por coleção mas a próxima vai ter, no mínimo, o dobro.
E sua gama de côres preferidas?
Adoro as cores, mas não dá para perceber isso no meu site (ele é todo preto e branco). Verdade, gosto muito! Estou no momento de ruptura com a cultura que adquiri trabalhando com o Rick Owens (que faz uma moda dark) e entrando mais no universo das cores, mas adoro os tons terrosos.
Como será sua coleção de verão?
No próximo verão, terei muito fio de algodão, de linho e um fio inacreditável de bambu, maravilhoso, muito parecido com o peso da seda, com um caimento lindo.
E sua atual coleção, a de inverno?
A minha coleção atual (aqui no slideshow do TASTE) tem uma construção muito sofisticada. São peças bem trabalhosas com um look muito cool, um pouco desestruturado.
Qual é a sua média de preço?
Cerca de mil dólares.
Aonde é que podemos comprar seus tricôs maravilhosos?
Na Barney’s na Madison, em Nova York, e, em breve, em Beverly Hills, na Maxfield. Na Ikram, em Chicago, na Colette, em Paris, na Accessorize, em Biarritz, na Joyce e na Lane Crawford, em Hong Kong, e The Art of Living, na Arábia Saudita.
E você não vende em Tóquio?
Ainda não, pas encore...
E em São Paulo, já pensou?
Adoraria... 
Alice Lemoine
11 rue Durantin
75018 Paris - França



