Muito comentada na Itália, a belíssima mostra "Roberto Capucci e l´Antico: ommaggio ala Vitoria Alata", até 18 de março, no Museo di Santa Giulia, em Brescia, na Lombardia. Não é todo mundo que admira sua estética incomum, que pode ser resumida em extravagante, escultórica, experimental, coloridíssima, teatral. Quem busca ter cultura de moda, impossível negar o caminho autoral de Capucci, que é mais escultor que costureiro. Como dizem na Itália, cria o "abito-scultura", vestido-escultura, onde o corpo é mero suporte. Ao em vez de moldar o metal, as dobras, plissados e volumes de Capucci são cinzelados no tafetá de seda pura, no veludo de seda, no crepe, no gazar, na georgette de onde brotam bordados que vão de seixos de rio a cubos de acrílico... Sua grande marca, o experimentalismo, é, no mínimo, fascinante
A mostra, em Brescia, do mestre Capucci – é assim que o chamamos na Itália - é um encontro entre duas artes, a haute couture e a estatuária romana do acervo deste museu listado pela Unesco no patrimônio histórico. Além de exibir parte de sua extraordinária coleção de alta costura, o costureiro apresenta uma criação inédita. Trata-se do vestido que il maestro criou em homenagem (ommagio) à estátua "Vittoria Alata" (Vitória Alada) de época romana, símbolo da cidade lombarda de Brescia (brê-cha). A mostra objetiva arrecadar verba para o restauro da histórica escultura com a venda do vestido em leilão.
Vitória Alada, símbolo de beleza
A diretora do museu e uma das curadoras da exposição, a arqueóloga Francesca Morandini, me disse: "A estátua Vitória Alada foi doada à cidade de Brescia pelo imperador romano Vespasiano (9 d.C. a 79 d.C.) para selar sua vitória na campanha militar em que seu exército conquistou Brescia e Cremona para os romanos. Foi essa vitória que o levou ao comando do Império Romano".
Quem é a mais bela: a Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia ou a Vitória Alada de Brescia?
Criada no século 1 depois de Cristo, a estátua representa Afrodite, a deusa do amor e da beleza, com um par de asas. Tão bela é a Vitória Alada de Brescia que se tornou um símbolo de beleza feminina. Através dos tempos, muitos especialistas afirmam ser ela mais perfeita que ícones como a Vênus de Milo (130 a.C a 90 a.C.) e a Vitória de Samotrácia (220 a.C. a 190 a.C), ambas no museu do Louvre, em Paris. O escritor americano, naturalizado inglês, Henry James, descreveu sua beleza como superior à da Vênus de Milo. No século 19, o imperador Napoleão III da França mandou fazer uma cópia que hoje pode ser admirada nas escadarias do Pavilhão Colbert no Louvre.
Bem, voltando à moda, melhor dizendo alta moda, a mostra reúne 31 criações do maestro Capucci que tive o prazer de conhecer!


Quem é Roberto Capucci
Em 1956, em uma entrevista à Vogue, Christian Dior definiu Roberto Capucci como o "maior criador da moda italiana". Capucci é um ícone na Itália. Sua alta costura faz a ponte entre a arte e a moda. É o último grande criador italiano a realizar a alta costura da forma mais tradicional e espetacular. Seu domínio sobre a linha e o corte, seus plissados e drapejamentos são tão extraordinários que seus vestidos são chamados de "abiti-sculturi", vestidos-esculturas. O maestro nasceu em Roma, em 1930, e estudou na Accademia dele Belle Arti em Roma.
Suas coleções estão reunidas na Fondazione Roberto Capucci, um belíssimo museu na Villa Bardini, em Florença, que vale a pena ser visitado. Parte do acervo está na mostra "Roberto Capucci e L´Antico" no Museo di Santa Giulia, em Brescia.


Leticia de Castro pergunta ao maestro Roberto Cappucci
O que a arte deve provocar?
Maestro Capucci: A arte é necessária ao homem. O homem ama a arte porque ela o aproxima à beleza, ao esplendor das formas, das cores. Com isso se torna menos violento e, talvez, encontre o sentido da vida como eu encontrei através do meu trabalho. É a arte que me nutre. É ela que deixou uma marca maravilhosa na minha vida. Sem a beleza, eu morreria...
Palavras de sabedoria para nossa reflexão. Vero, non?
Assista ao vídeo sobre as coleções de Capucci em seu museu, Fondazione Roberto Capucci, na Villa Bardini, em Florença:
Opinião TASTE por Cynthia Garcia
Quando a Leticia propôs Capucci para sua primeira colaboração no TASTE, pensei o último mestre da antiga escola da haute couture é polêmico, nunca fez prêt-à-porter, é pouco conhecido no Brasil. E não é todo mundo que curte sua estética incomum, que pode ser resumida em extravagante, escultórica, experimental, coloridíssima, teatral.
Mesmo se você não gosta, não há como negar em Capucci savoir faire, criatividade, coragem, a trinca que revoluciona o mundo. É o que me atrai nele e em sua obra. Algumas criações suas me fascinam, outras, considero estudos exagerados. Mas é esse espírito inovador, ousado, que move o verdadeiro artista: realizar peças que levam os parâmetros estéticos para outro patamar, mesmo que algumas experiências sejam menos bem sucedidas. Sem isso arte não vai adiante.
Capucci é mais escultor que costureiro. Como dizem na Itália, cria "abiti-scultura", vestidos-escultura. São esculturas onde o corpo é mero suporte. Ao em vez de moldar o metal, as dobras, plissados e volumes de Capucci são cinzelados no tafetá de seda pura, no veludo de seda, no crepe, no gazar, na georgette de onde brotam bordados que vão de seixos de rio a cubos de acrílico...


Quem busca ter cultura de moda, impossível negar o caminho autoral de Capucci
De seu atelier na via Gregoriana 56, em Roma, assinou o figurino de Silvana Mangano para o cultuado filme "Teorema", de Pier Paolo Pasolini (1968), vestiu as divas do bel canto como Maria Callas e a realeza ousada como a princesa italiana Maria Pia di Savoia. Sua paleta rica e audaciosa nasceu da paixão pela arte, de seu início como estudante de artes plásticas e das frequentes viagens à Índia e à China, países que adora. Na década de 80, as coleções de Capucci, apenas uma ao ano, eram desfiladas cada vez em uma capital do mundo.
Em 2010, a dupla de designers ingleses Marja Pejoski e Sasko Bezovski, da marca KTZ, que desenvolvem minicoleções para a Topshop desenvolveu uma minisaia e um minivestido para o magazine inspirados em Capucci.
De março a junho de 2011, o mestre italiano foi homenageado no Philadelphia Museum of Art, nos EUA, na mostra "Roberto Capucci: Art into Fashion", que publicou um ótimo livro com o mesmo nome. Suas coleções correm os museus do mundo, agora está em Brescia, mas se concentram na Villa Bardini, em Florença, na Itália, sede do museu e da Fondazione Roberto Capucci, aberta a visitantes and true fashion lovers. 

"Roberto Capucci e l'Antico: Ommagio alla Vittoria Alata"
Até 18 de março 2012
Museo di Santa Giulia
Via Musei 81/b
Brescia, Italia
Tel +39 030 2977833
www.robertocapuccielantico.com
Fondazione Roberto Capucci
Villa Bardini
Costa San Giorgio, 2
Firenze, Itália
Tel: +39 055 20066209
www.fondazionerobertocapucci.com
Fotografia de Leticia de Castro e Claudia Primangeli



