Não se sabe exatamente como surgiu esse famoso drink à base de rum branco que se tornou um dos símbolos da ilha de Fidel, mas especula-se que a mistura de ingredientes aconteceu na efervescente noite de Havana
O escritor americano Ernest Hemingway (1899-1961), notório contador de histórias, grande apreciador de Cuba e de Fidel, e famoso beberrão, amante de charutos, touradas e mulheres, espalhou que o pirata inglês Francis Drake (1540-1596), que dizem foi amante da Elizabeth I, era apaixonado pelo aroma e sabor da hortelã e, um belo dia, misturou a folhinha com o rum, a bebida alcoólica mais popular nas naus que pilhavam o Caribe.
Se o Mojito foi c
Hemingway, segundo à esq., bebericando seu Mojito na Bodeguita, sob o olhar atento e discreto do barmen Constantino, anos 60riado há 500 anos pelo pirata inglês, se por acaso foi obra de algum cubano bom de copo há 150 anos ou se foi inventado nos anos 40 no célebre bar em Habana Vieja, Bodeguita de Medio, não sabemos. Saboroso, refrescante e com ginga tropical, ele tornou-se uma unanimidade e símbolo de Cuba. Seu sabor foi descrito na literatura através da pena de Hemingway e já mereceu menções especiais no cinema, em "O Poderoso Chefão" de Francis Ford Coppola, no musical "Eles e Elas"("Guys and Dolls") de Joseph Mankiewicz e, mais recentemente, em "Volver" de Pedro Almodóvar.
"Mi Mojitos na Bodeguita del Medio" por Cynthia Garcia, editora do TASTE
Quando estive em Cuba, em 1984, o Brasil ainda não havia restabelecido relações diplomáticas com a ilha de Fidel. Era um malabarismo geográfico obter o visto cubano. O jeito era bater ponto em algum país da América Latina que tivesse a embaixada de Cuba e de lá seguir para o polêmico arquipélago antilhano. Optamos pelo Peru.
La Bodeguita
Na época, em Havana, havia pouquíssimos restaurantes, se é que se pode chamar assim, e eu e meu ex estávamos lá por 15 dias. Resolvemos então seguir o conselho do papa Hemingway, um dos meus autores preferidos, que cunhou a seguinte frase: "My mojito in La Bodeguita. My daiquiri in El Floridita": Meu mojito na Bodeguita, meu daiquiri na Floridita. A máxima etílica está emoldurada no bar da Bodeguita com muito orgulho.
Uma instituição dos prazeres etílicos
A Bodeguita é um boteco simpaticíssimo como ainda existem alguns no Rio, mas que desapareceram dos Jardins paulistano, depois que o bairro surtou com o tal do "luxo". Lembro bem do bar do casal português Dona Adélia e seu Quintas na esquina da Consolação com Itu, que reunia uma moçada de jovens intelectuais, como eu, hoje pessoas bem sucedidas no cenário de SP. O Supremo trouxe de volta a tradição do boteco português à esquina da Oscar Freire com Consolação mas, depois de uns anos, vendido, deixou saudade...
Habana Vieja
Nesse autêntico botequim no centro de Habana Vieja, na calle Empedrado de número 207, gargalhadas fazem parte do ambiente, os barmens são antigos, impecáveis, e os garçons, aflitos, parecem não dar atenção, em autêntico espírito de garçon. O mítico escritor americano era um bonitão, cheio de charme e desejos. Verdadeiro rabo de saia, esse machista assumido batia ponto no Bodeguita, quase diariamente para seu trago de Mojito. Seu espírito livre e aventureiro o levou a viver em vários lugares do mundo. Nos anos 20, em Paris, escreveu "Paris é uma festa" (ótimo). Viveu na África, onde adorava caçar. Foi para Espanha lutar no front contra os franquistas na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), que o inspirou em "Por quem os sinos dobram", do qual gosto dos dois, livro e o filme, com Ingrid Bergman e Gary Cooper, de 1943, um cult. Antes, em 1932, já havia aterrissado na ilha de Fidel, de quem ficou amigo para horror dos americanos.
Hemingway: Pulitzer de literatura em 1953
É preciso entender que Hemingway era um ícone mundial, uma figura única, ele era seu maior personagem. Além de ser bonito, gostosão, charmoso, brilhante, aventureiro, louco, romântico, cafajeste, bem sucedido em tudo que fazia - um homão apaixonante com final trágico por quem todos se sentiam atraídos, homens e mulheres -, era um intelectual de primeira, ganhador de premio Pulitzer de literatura, em 1953, com o antológico "O Velho e o mar", um livro pequeno grande em profundidade, transformado em filme cult, em 1958, com o inesquecível Spencer Tracy no papel do sábio pescador. Hemingway era do tipo que se ama ou se odeia. Era um divino deus maldito que se refugiou no alcoolismo. Faz parte dos mitos americanos desiludidos com a vida: Marilyn Monroe, James Morrison, James Dean, Janis Joplin, Jimi Hendrix...
Fidel, o machão X J.Edgar Hoover, o travesti
Em Cuba, papa Hemingway, como eles o chamam, comprou a Finca Vigia, uma linda fazendola a 30 kms de Havana, transformada em museu, que tive a sorte de conhecer. Era lá o lar-doce-lar desse homem inquieto, que deu toda força para a Revolução Cubana, em 1959, para mais horror dos gringos e do chefão do FBI, o temido J. Edgar Hoover, cross-dresser (travesti), na intimidade, mas isso é outra história...
"The one and only Mojito"
Conta-se que, em 1942, o señor Angel Martinez comprou a Bodega la Complaciente, renomeada Casa Martinez. Apesar de logo se tornar um dos buchinchos de la Habana, o nome não pegou. Em 1950, foi oficialmente rebatizada Bodeguita del Medio. O poeta Pablo Neruda, o escritor Gabriel Garcia Marques, o compositor mexicano Agustín Lara, o cantor americano Nat King Cole e até divas do cinema como Marlene Dietrich e Brigitte Bardot estão entre os milhões de clientes que há anos vão bebericar the one and only Mojito, em sua atmosfera tipicamente habanera.
Château Margaux
Oficialmente, Hemingway se casou quatro vezes. Tornou-se um dos escritores mais vendidos no mundo. Suicidou-se com um tiro de espingarda, em 1961, no Idaho, nos EUA. É avô da modelo Margaux Hemingway, uma homenagem ao bordeaux preferido do escritor, o Château Margaux. Ela, linda, se suicidou, em 1996... Sua irmã caçula é a atriz Mariel Hemingway, musa de Wood Allen no cult "Manhattan"(1979).
Os mais famosos livros de Ernest Hemingway de sua fase cubana
Aconselho os livros abaixo. São deliciosos e curtos, Hemingway escrevia divinamente com frases sintéticas, diretas, sem se alongar:
- 1937: "To Have and to Have Not" ("Ter ou não Ter")
- 1952: "The Old man and the Sea" ("O Velho e o Mar")
- 1970: "Islands in the Stream" (As Ilhas da Corrente")
Site oficial do escritor:
www.ernesthemingwaycollection.com
A Bodeguita del Medio não tem site, nem aceita reservas:
Calle Empedrado, 207
Habana Vieja, Cuba
Receita do Mojito da Bodeguita del Medio, Havana, Cuba:
Ingredientes
50 ml de rum branco
Suco de 1 limão
1 colher de chá de açúcar refinado
5 folhas de hortelã fresca
Club soda
Gelo triturado
Modo de fazer
1. Em um copo longo, coloque - sem amassar - as folhas de hortelã e o açúcar. Um detalhe, tem gente que adiciona uma rodela de abacaxi e dá uma amassadinha nela. Importante, a adição do abacaxi pode até ficar gostosa, mas não tem nada a ver com o verdadeiro Mojito da Bodeguita del Medio.
2. Adicione o suco de limão e preencha o copo com o gelo triturado.
3. Adicione o rum, de preferência Havana Club, e complete com uma club soda bem geladinha. Salud!!! 



