O autêntico espírito do colecionismo contemporâneo baseia-se em ousadia, autoralidade, exclusividade e, fundamental, em cultura de arte e de design. Não basta possuir. É preciso buscar conhecimento sobre a arte e os objetos que nos cercam, bem como, sobre aqueles com os quais sonhamos e nunca vamos ter. Isso é que é bacana. Ninguém nasce sabendo, mas permanecer na ignorância é pra lá de brega
Em meados dos anos 80, João Pedrosa aposentou seu cargo de super PR do Gallery, a balada mais bacana do happy few daqueles idos tempos, ao se conscientizar que deveria dirigir seu olhar para o antiquariato, palavra que cunhou por aqui. Ao voltar seu talento para a arte e o objeto, a nova aventura na área do bom gosto do dandy, nascido em família quatrocentona de fazendeiros, foi encampada pela turma que fazia o charme daquela paulicéia. Com sua verve irônica balizada em conhecimento e cultura, trajes com toques originais e outstanding physique du rôle, Pedrosa marcou seu estilo tornando-se um dos árbitros da estética culta, refinada - mas de ponta -, nessa metrópole paulistana inundada por um enxame de fakes, esses falsos talentos que em nada contribuem e quando o fazem, pisam no tomate...
Na exposição, organizada por Pedrosa para encerrar 2011, que inaugura dia 10/11, na Leicht, na avenida Europa, ele mais uma vez dá um passo ousado, de insider da arte que é. Expõe uma coleção ainda desconhecida abaixo do Equador. As cerâmicas Fat Lava.
Fat o quê? Lava gorda???
“Fat Lava é um nome inventado que, provavelmente, se originou de um engano de tradução, mas pegou pela esperteza da gíria”, explica sobre a produção até então conhecida sob o nome generalista de Studio Ceramics. Na realidade, o termo foi cunhado pelo antiquário inglês Mark Hill, fisicamente parecido com Pedrosa. Hill deu status de objeto de culto a essa cerâmica que ele redescobriu para os colecionadores britânicos, produzida em Berlim Oriental antes da Queda do Muro em 1990, e até então circunscrita apenas a admiradores na Holanda e na Alemanha. “A produção de Fat Lava ocorreu nos anos 60 e 70 em uma dezena de fábricas artesanais da Alemanha Oriental, a maioria das quais encerrou as atividades quando a cerâmica ficou fora de moda e o mundo esqueceu que aquela parte do planeta poderia dar algum tipo de contribuição inteligente ao capitalismo. Hoje essa produção deslumbra os colecionadores mesmo os visualmente blasés”, alfineta.
As manufaturas na mostra com sua curadoria são a fina flor do Fat Lava: Jasba, Scheurich, Roth, Ruscha, Bay, Dümler & Breiden, Soendgen, Carstens, Cortendorf, Waechtersbach, U-Keramik, Strelach, Ceramano e Steuler. Os tamanhos variam de 25 cm a 40 cm com preços até R$ 1.800, que tendem a aumentar em função da originalidade dessas peças, não mais produzidas. “A Fat Lava tem padrões e texturas fortes, chamativas, como na pintura expressionista abstrata. Logicamente, dentro dessa produção existem peças decoradas com motivos florais e ornamentais típicos do kitsch. Mas os padrões bizarros e as combinações gritantes de cores quase puras tornaram a Fat Lava uma arte apaixonante, do tipo ame-a ou deixe-a”, alerta Pedrosa, claramente, dividindo o joio do trigo.
Fat Lava – Cerâmicas da Alemanha Oriental, anos 1960/70
Até 30 de dezembro, após esse período by appointment only Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.
Local: Leicht (www.leicht.com.br)
Av. Europa, 593 / São Paulo



