“Tarsila do Amaral: Percurso Afetivo”, Rio de Janeiro

Expoente do modernismo no Brasil, Tarsila do Amaral (1886-1973) ganha mostra em homenagem ao seu talento inspirador. Depois de 43 anos sem exposições no Rio de Janeiro, as telas e objetos da artista ganham destaque em “Tarsila do Amaral: Percurso Afetivo”, em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 29 de abril.

O curador Antônio Carlos Abdalla decidiu seguir por um caminho menos convencional para a organização da mostra. Inspirou-se no registro do diário visual que esse ícone do modernismo mantinha de suas memórias através de notas de restaurantes, fotografias, bilhetes de trem… É desse registro único que surgiu o título da mostra “Percurso afetivo”, uma colagem de obras de uma das mais importantes artistas brasileiras de todos os tempos. O toque livre e pessoal da exposição também tem o dedo de Tarsilinha do Amaral, sobrinha-neta da pintora paulista.

80 obras de Tarsila

Apesar dos esforços, faz falta na mostra carioca a presença de duas telas marcantes na trajetória de Tarsila. A primeira é “Abaporu” (1928), sua obra mais significativa, não foi liberada por seu dono, Eduardo Constantini, o colecionador de arte e responsável pelo museu MALBA de Buenos Aires. Outra também é a “A Negra” (1923), que pertence ao acervo do MAC-USP. No entanto, para compensar, o CCBB trouxe como grande destaque da mostra a tela “Antropofagia” (1929), juntamente com “Morro da favela” (1924), “Estrada de ferro Central do Brasil” (1924) e mais 80 obras de Tarsila.

Objetos pessoais da artista

A mostra também apresenta objetos pessoais da artista, como pincéis, espátulas, desenhos, anotações, um Moleskine, além de uma estola e um bracelete especialmente criados para ela pelo costureiro francês Paul Poiret, nome que revolucionou a moda feminina até 1920.

Sobre Tarsila

Nascida em 1886, em Capivari, São Paulo, Tarsila teve uma infância privilegiada, sua família era dona de terra, produtora de café. O contato com o mundo das artes acontece cedo em sua vida nos saraus de família. Aos 16 anos, vai estudar em Barcelona onde começou a se dedicar ao desenho. Ao voltar para o Brasil, em 1906, casa-se com o homem escolhido pela família.

Grupo dos 5

Depois de anos sufocada por um casamento convencional, Tarsila se revolta, divorcia-se. Torna-se uma mulher moderna. Abraça seu talento e começa a estudar artes com os escultores Zadig e Mantovani, e com o pintor Pedro Alexandrino. Na década de 20, segue para a França, onde frequenta a Academia Julian e o atelier do retratista Émile Renard. Em 1922, expõe no Salão dos Artistas Franceses, em Paris. Ao retornar para o Brasil é apresentada pela amiga e pintora Anita Malfatti aos irmãos intelectuais, Oswald de Andrade e Mário de Andrade, e ao poeta Menotti Del Picchia, formando o famoso “Grupo dos 5”, que teve vida curta, pois no final do mesmo ano ela retorna a Paris.

Fase antropofágica

Apaixonado por Tarsila, Oswald de Andrade segue-a pela Europa e eles travam uma parceria artística, pessoal e intelectual que muda o rumo da história da arte brasileira. Na mesma década, Tarsila passa a ter contato com pintores cubistas como Picasso e André Lothe e a sofrer influência do movimento cubista em sua arte. Em 1928, ela presenteia Oswald sua mais famosa tela, o Abaporu, palavra que em tupi significa “antropófago, homem que come carne humana”. A partir daí dá-se o início de sua fase antropofágica, a mais brilhante de sua fenomenal carreira, introduzindo um novo caminho nas artes plásticas do país, com eco na vanguarda de Paris, capital mais influente do mundo artístico de então.

Fase de engajamento sócio-político

Outro momento marcante de sua carreira acontece em 1931. A separação de Oswald de Andrade e a viagem que fez à União Soviética resultam na fase de seu engajamento sócio-político. É quando Tarsila corajosamente cria duas obras-primas da desigualdade e opressão sociais – “Operários” (1933) e “2ª Classe” (1933) -, em um Brasil sem consciência social alguma, dominado pelas elites do café e de uma política retrógrada.

Legado

Tarsila do Amaral faleceu em 1973, aos 86 anos. Além de deixar um legado de talento, originalidade, inovação estética, coragem e feminismo, fincou o nome do Brasil na História da Arte Moderna do século 20.

 

Tarsila do Amaral: Percurso Afetivo

Até 29/4

CCBB Rio de Janeiro

Rua Primeiro de Março, 66

Centro, Rio de Janeiro

Tel.: 21 3808-2020

www.bb.com.br/portalbb/home21,128,128,0,1,1,1.bb